Assédio e Machismo: O Corpo da Mulher Não é Cardápio Masculino
Assédio e Machismo: O Corpo da Mulher Não é Cardápio Masculino
O impacto causado pelo assédio sofrido
por Claudia Sheinbaum, presidente do México, quando um desconhecido
ousou abraçá-la e tentar beijá-la, prova que, não importa o cargo ou o país em
que esteja, uma mulher será sempre lembrada de milênios de subjugação de seu
corpo e alma aos caprichos sexuais de um homem. Este, por sua vez, age assim
protegido pelo machismo que tudo pode, autoriza e acoberta.
A manhã de ontem, o estado de Mato
Grosso acordou impactado com um áudio de um servidor público contratado que
expunha seus desejos sexuais em relação à Deputada Janaína Riva, pedindo
ao interlocutor que o enviasse a todos os grupos. Penso que a intenção era que
o áudio chegasse até a deputada, ou talvez, levar ao conhecimento do Estado de
Mato Grosso a sua "virilidade". O problema é que ele esqueceu de
perguntar à deputada se ela gostaria de estar em seu "cardápio
alimentar".
Li muitas notas de repúdio em favor de
Janaína Riva durante o dia, e acredito que a deputada tenha se sentido afagada
por todas as pessoas de bem deste estado, independentemente de gênero ou
ideologia política.
Peço licença para não escrever mais
uma nota de apoio a Janaína, mas sim dedicar umas palavras ao seu assediador,
que não pode passar sem ouvir o que uma mulher pensa da atitude de homens como
ele.
De aparente índole conservadora
cristã, esse senhor – que me recuso a nominar para não lhe dar mais publicidade
desmerecida – esqueceu rapidinho do sexto mandamento das leis de Deus, que
estabelece: “Não pecar contra a castidade”. Não me surpreende a
"suposta" libido do varão; o que me estarrece é saber o que há por
trás da tentativa de humilhar e tentar se engrandecer com o nome da deputada
Janaína Riva. Sim, digo, sobre o NOME da deputada, que é a única coisa
que esse varão conseguiu de aproximação com a deputada: pronunciar o seu nome.
O varão não está à altura de Janaína
Riva, e isso o incomoda muito. A única saída para deixar de sentir o fracasso
que é toda vez que a vê é tentar a sua subjugação sexual, ainda que virtual. A
psicologia e a sociologia já dão conta de explicar com certa facilidade o que
está por trás do áudio do varão “comedor”, como fatores psicológicos e
comportamentais, tais como:
- Necessidade de Poder e Controle: Muitos assediadores consideram as mulheres como vulneráveis ou
hierarquicamente inferiores. Ter que aceitar que uma mulher é uma deputada
estadual, enquanto ele é um simples comissionado, rói as entranhas
"cristãs" do indivíduo, criado para ser servido por uma mulher,
e não ter que servir a esta.
- Baixa Autoestima e Insegurança: Ao tentar diminuir e/ou constranger a deputada, ainda que somente
de forma virtual, o agressor pode sentir um aumento temporário em seu
próprio valor ou virilidade. Que, no dia a dia, não passa de uma
"meia bomba"!
- Distorções Cognitivas e Normalização do
Comportamento: A mente atrasada ainda pensa que
comentários sexistas – onde a mulher é adjetivada de comida – são uma
forma aceitável de demonstração de virilidade. Não, meu senhor, não é!
- Falta de Empatia: A incapacidade de reconhecer ou se importar com o sofrimento e o
desconforto da mulher atacada é um traço comum em assediadores. Eles focam
em sua própria satisfação ou desejo de controle, ignorando o impacto de
suas ações. Porque, na vida prática, real, não conseguem gostar nem de si
mesmos.
Tais fatores psicológicos e
comportamentais, por sua vez, ocorrem devido a Fatores Socioculturais,
sobretudo no Brasil, caracterizado pelo Machismo e Cultura Patriarcal.
Uma cultura que historicamente minimiza o feminino e exalta o masculino,
criando um ambiente onde o assédio é mais permissivo e, às vezes, até
incentivado. Soma-se a isso o silenciamento da vítima, que tem medo de
denunciar por vergonha, culpa ou receio de não ser acreditada, encorajando o
agressor a continuar com seu comportamento inadequado, pois raramente enfrenta
consequências.
Por isso, a deputada Janaína fez muito
bem em denunciar à polícia a agressão sexual virtual que sofreu.
Em resumo, o assédio é um
comportamento complexo que resulta da interação entre vulnerabilidades
psicológicas individuais e normas culturais que permitem, e às vezes
normalizam, a invasão do espaço e do corpo da mulher.
Não calem!
Comentários
Postar um comentário