Minha Trajetória Entre Armas e Rosas



            (foto: acervo pessoal)

Minha Trajetória Entre Armas e Rosas

Meu primeiro contato com a banda de rock Guns N’ Roses se deu lá pelos idos de 1991, 1992, num mundo analógico, onde aprendíamos a gostar de músicas pelas rádios AM/FM, muitas vezes, decorávamos as melodias, sem fazer ideia do que dizia a letra e muito menos sabíamos a aparência física dos músicos que embalavam as nossas tardes entre afazeres de casa e tarefas escolares.

Naquela época, para termos acesso fácil às músicas, comprávamos fita cassete, e aguardávamos a música tocar na rádio para então gravar, torcendo para que o locutor não falasse por cima da música, ou colocasse o slogan da rádio, quando isso acontecia, horas de espera ia por água abaixo. Lembro-me que uma fita cassete tinha uma quantidade de músicas regravadas uma por cima da outra, tudo sob o sabor da mais nova música a ganhar nosso coração adolescente.

Outra forma de acessar os nossos ídolos era assisti-los num canal de TV chamado MTV, que em sua programação trazia os videoclipes dos cantores e bandas pop, sobretudo, aqui na América Latina, de cantores e bandas americanas fortemente patrocinadas pelas grandes produtoras e gravadoras da época como a Geffen Records, que na década de noventa, não só era a gravadora do Guns N' Roses, como ainda possuía contrato com as bandas Aerosmith e Nirvana.

Em 1991, enquanto eu iniciava o primeiro ano do segundo grau, a banda Guns N’ Roses era consagrada no Brasil com sua apresentação no Rock in Rio. Ou seja, enquanto eu sonhava em prestar vestibular para cursar Direito para me tornar uma advogada, o Guns N’ Roses já era superstar e embalou o transcorrer da minha vida adulta até o nosso encontro físico em três horas de show ocorrido na Arena Pantanal no último dia 31 de outubro de 2025, casualmente, o Dia das Bruxas!

Foi ao som de "Knockin' On Heaven's Door" que aprendi o que é luto e a dor de perder um amigo de 18 anos, pela violência da fronteira entre Brasil e Paraguai no início da década de 1990: “Está ficando escuro, escuro demais para ver, sinto como se estivesse batendo na porta do Céu”. Mais de 30 anos se passaram, e ontem no primeiro acorde da canção, pude te ver, Léo, batendo na porta do céu com aquele teu casaco amarelo da Adidas falsificado no Paraguai, horrível, foi por você que estive na arena ontem à noite. Teu filho, hoje, está um pouco mais velho do que a idade que você tinha quando foi abatido!

Quando me casei, na virada do século, a imagem do videoclipe da canção "November Rain" assombrava a minha cabeça, era o meu sexto sentido gritando que a embarcação estava errada, afinal de contas “é difícil manter uma vela acesa na fria chuva de novembro”. Meu casamento, celebrado em novembro, dois dias antes de Finados. Pobre coitada da união, nasceu moribunda, morreu sem deixar sementes!

No início dos anos 2000, passei a desconfiar que não poderia ser mãe, um peso que somente eu vi, eu carreguei, eu suportei, afinal de contas o defeito era meu e de mais ninguém, embora por muitas vezes eu só queria que alguém tivesse me dito “Don’t Cry”: “Eu sei como você se sente por dentro, eu já estive aí antes”. Mas, como não existe nada que seja ruim que não possa piorar muito, ainda que nunca tivesse dado à luz a um único ser humano vivo, o castigo dobrou a aposta, agora, uma histerectomia se tornou inevitável. Dentro de mim, o tempo todo me consolava cantando em silencio Don’t Cry: “Algo está mudando dentro de você. E você não sabe disso?”. Foi quando aprendi que chorar, quando não se é abençoada pelos deuses, é igual a chorar no berço quando não se tem mãe.

Porém, nem tudo é só arma e destruição, também houve rosas no caminho, afinal de contas, sobrevivi a uma pandemia, sem nenhuma sequela física, pois, quanto às sequelas emocionais, elas perdem a força de destruição depois dos cinquenta anos, por isso que ontem pude gritar a plenos pulmões Welcome To The Jungle, afinal de contas abri o jogo: “Na selva, bem-vindo à selva. Veja como ela te derruba, te faz cair de joelhos. Oh, eu quero te ver sangrar.”

Valeu Guns N’ Roses, obrigada por embalar e dar significado sonoro à minha vida, obrigada Cuiabá, por sediar o encontro.

              


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