Opinião: Editoras, Precisamos Falar Sobre a Necessidade de Indicar Conteúdo Sensível


 Opinião: Editoras, Precisamos Falar Sobre a Necessidade de Indicar Conteúdo Sensível

 

O jurista e escritor Silvio Almeida, em seu livro Racismo Estrutural (2020), menciona que: “em um mundo em que a raça define a vida e a morte, não a tomar como elemento de análise das grandes questões contemporâneas demonstra a falta de compromisso com a ciência e com a resolução das grandes mazelas do mundo”.

Pois bem, na minha fila de livros clássicos para ler, estava o romance A Carne do escritor naturalista Júlio Ribeiro (1845 – 1890), em uma edição de 2019, impressa pela Editora Lafonte.

Na primeira capa, o romance é descrito como:

“... O romance avassalador que surge entre eles é descrito com cenas explícitas de sexo e sadismo, até então inéditas na literatura brasileira. Dos vários temas deste livro, como desejo sexual, amor livre, perversões, divórcio, o destaque é o protagonismo feminino, que provocou amplo debate sobre o novo papel da mulher na sociedade.”

Na quarta capa, o romance é definido da seguinte forma:

“... Fiel a suas ideias republicanas, avesso aos “batinas”, como se referia à Igreja, com perspicácia para perceber a falência moral do fim do século XIX, retratada pelo comportamento de seus personagens, e a redefinição dos papéis de gênero, Júlio Ribeiro é até hoje um autor controvertido, mais valorizado como gramático do que como escritor. Todavia, inova na literatura brasileira, recusando-se a criar mais uma heroína tradicional, e atribuindo a Lenita, sua protagonista, papel ativo de sua própria feminilidade.”

Como se vê, não existe nenhuma referência de que o texto do romance apresenta um contexto fortemente racial e violento, indigesto para qualquer paladar literário minimamente humano ou humanizado.

E não venham me dizer que faz parte de um contexto da época, e que a leitura tem que ser realizada com base na visão daquele tempo, porque o assunto aqui não se refere ao quão racista e perverso é o texto do romance ou até mesmo o próprio autor.

A crítica, aqui, faz referência ao fato de que uma edição da obra, em 2019, não ter verificado, por conta própria, a importância de fazer referência ao fato de que o texto é repleto de racismo naturalizado e institucionalizado.

Veja que a editora se esforça em apresentar a obra literária como uma inovação por trazer uma heroína que fugia aos padrões da época, mas não faz qualquer referência a que, na atualidade, a discriminação racial é inaceitável.

Ao ser omissa quanto à questão da discriminação racial, a editora diminui, inclusive, o valor histórico-literário da obra, pois deixa de oportunizar o debate quanto ao racismo estrutural, bem como torna a personalidade feminina discutida na obra irrelevante, ao, sem sobreaviso, nos depararmos com descrições como esta:

“… sentir-se ferida pelo aguilhão da carne, espoliar-se nas concupiscências do cio, como uma negra boçal, como uma cabra, como um animal qualquer… era a suprema humilhação.”

O desconforto é tamanho que o romance perde o sentido.

Nada explica mais o racismo estrutural vigente em nosso país do que o fato de chegarmos em 2019 e uma obra literária que trata a mulher preta como um animal ser republicada por mais de uma editora todos os anos, sem nenhuma ressalva, sem nenhuma frase de reparação histórica.

Essa omissão é inaceitável por não influenciar o leitor contemporâneo da obra a fazer uma leitura crítica adequada aos padrões civilizatórios mínimos de nossa época, induzindo — como já induziu milhões de brasileiros — a ler a obra apenas como uma obra naturalista, ligada ao viés feminino branco, e tratando o racismo apenas como uma visão da época, como se tal mazela não estivesse atrelada à desigualdade social em nosso país.

O texto vai além, quando a heroína pede para retirar o ferro do tornozelo de um escravizado, e o senhor do Engenho lhe responde:

“— Aí, filha! Você não entende desse riscado. Qual barbaridade, nem carapuça! Neste mundo não existe coisa alguma sem sua razão de ser. Estas filantropias, estas jeremiadas modernas de abolição, de não sei que diabos de igualdade, são patranhas, são cantigas. É chover no molhado – preto precisa de couro e ferro como precisa de angu e baeta. Havemos de ver no que há de parar a lavoura quando esta gente não tiver no eito, a tirar-lhe a cócegas, uma boa guasca na ponta de um pau, manobrada por um feitor destorcido. Não é porque eu seja maligno que digo e faço estas coisas; eu até tenho fama de bom. É que sou lavrador, e sei dar nome aos bois. Enfim, você pede, eu vou mandar tirar o ferro. Mas são favas contadas – ferro tirado, preto no mato.” (pág. 31)

É estarrecedor verificar que a editora não sentiu a necessidade de advertir os leitores da existência de conteúdo sensível, mesmo sendo o texto explícito ao afirmar que “preto precisa de couro e ferro como precisa de angu e baeta”, e mesmo diante de estudos publicados pelo Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD C), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mostram que a taxa de homicídio de homens negros no Brasil é quase quatro vezes maior do que a de não negros.

A ignorância e a omissão quanto aos temas raciais no país matam e aumentam o fosso da discriminação racial. Nesse sentido, o tema não pode ser omitido pelas editoras ao publicar obras literárias que façam referência à temática escravagista. Isso deve ser observado na capa, para fins de reparação histórica.


 Referências

  1. ALMEIDA, Silvio. Racismo Estrutural. São Paulo: Sueli Carneiro; Editora Jandaíra, 2020.
  2. RIBEIRO, Júlio. A Carne. São Paulo: Ed. Lafonte, 2019.

 



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